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“Amava bom vinho, boa comida, boa mulher e claro…
Jazz; era um grande trabalhador, que perdeu a vida ainda trabalhando
aos 85 anos, coisa muito rara; ele pensava na vida, não pensava na
morte e tudo em que ele se metia era realmente com uma grande paixão;
era um pai… Um pai, sim; o Ricardo, para mim, foi um fotógrafo
completo”, comentaram alguns dos que com ele comungaram.
Ferro em brasa
Numa entrevista dada há quatro anos à BBC, Ricardo Rangel lembrou como tinha fotografado a dor, para que não nos esqueçamos,
de Moçambique dos anos pré-independência.
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Censura
 O jovem tinha perdido uma rês e o patrão, o dono do gado, que era um português, marcou-o como castigo a ferro em brasa na
testa! Essa fotografia, fiz tudo para publicá-la mas não foi possível.
Ricardo Rangel, em entrevista, em 2005, à BBC
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“Tenho
uma foto que está a correr mundo que é a do jovem pastor marcado na
testa com um ferro de marcar gado. Uma foto feita em 1973. O jovem
tinha perdido uma rês e o patrão, o dono do gado, que era um português,
marcou-o como castigo a ferro em brasa na testa! Essa fotografia, fiz
tudo para publicá-la mas não foi possível”, recordou.
Foi em casa
na noite da passada quinta-feira, 11 de Junho que, aos 85 anos, Ricardo
Rangel faleceu, como lembra a amiga Maria Pinto Sá, sua antiga camarada
de redacção na revista Tempo – a primeira a cores em Moçambique - de
que Rangel foi co-fundador.
“Rangel
estava sentado a perguntar que horas eram (20 para as oito) e ele pediu
à mulher, Beatriz, que o avisasse quando chegasse a hora do Telejornal.
Às cinco para as oito a Beatriz chamou-o. Como ele não respondia, ela
foi à sala onde o Ricardo estava mas o Ricardo já não estava”.
Condecorações
Mas está - e fica - a sua arte de fotografar, que Rangel, citando o mestre francês, Henri Cartier-Bresson, definia como "colocar
na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração".
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| Rangel não fechou os olhos à realidade da sociedade moçambicana da era colonial |
Ricardo Rangel participou em dezenas de exposições em diversos países, incluindo o museu Guggenheim, em Nova Iorque e foi
condecorado com a distinção de Oficial das Artes e Letras pelo Governo francês.
Nascido em 1924 na então Lourenço Marques, Rangel foi o primeiro fotojornalista não-branco em Moçambique, ao integrar, em
1952, a equipa do “Notícias da Tarde”.
Foi ainda um dos fundadores em 1970 da revista "Tempo", onde trabalhou com Maria Pinto Sá, que ouvimos há pouco, e já depois
da independência, criou o Centro de Formação Fotográfica, onde dirigia cursos de fotojornalismo.
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| Ricardo Rangel numa entrevista a Teresa Lima em Maputo, em 2005 |
Sérgio Santimano, um fotógrafo moçambicano radicado na Suécia, foi nos princípios dos anos 80 camarada de redacção de Ricardo
Rangel no semanário Domingo.
No
passado mês de Maio, Sérgio foi a Maputo com o propósito de fotografar
o mestre no seu quarto preferido (ver foto de abertura).
“Ricardo tinha um quarto muito especial onde as fotos nas paredes reflectiam o tempo e os colegas da sua vida de fotojornalista.
Era também o quarto onde ele tinha a sua música, que era o Jazz!”, evocou.
Jazz
Com uma vastíssima colecção de discos e gravações, Ricardo Rangel criou um clube nos Caminhos de Ferro em Maputo, chamado
"Chez Rangel".
Orlando José da Conceição, um dos seus alunos de fotografia, que também tocava clarinete e saxofone, foi um dos que lá actuou.
“Nós
tocávamos standards de Charlie Parker, Duke Ellington, Dizzy Gillespie,
Lester Young… Ele era amante do bebop, sobretudo. Era a música que nos
ensinava. Ele convidava os jovens para sessões de audição e vinha
sempre às nossas actuações, viajávamos com ele para fora do país, para
as províncias… Fosse onde estivéssemos ele estava sempre a nosso lado.”
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| O Jazz acompanhou Ricardo Rangel até à sua última morada |
Naíta
Ussene, editor fotográfico do semanário Savana, que aprendeu
fotojornalismo com Rangel na revista “Tempo”, nunca se esquecerá de
lembrar da constante chamada de atenção do mestre para o melhor momento
da foto e a lição de sempre capturar as fotos de pessoas ou situações
que normalmente não são notícia".
“Deu-me tudo o que tinha para dar e para me ensinar. Considerava-o como pai, um pai espiritual. Ele dizia-me, ‘Naíta, um homem
tem sempre de aprender, todos os dias’, e isso, para mim, ficou…”
Um outro aluno, Tomás Cumbana, relembrou como Ricardo Rangel era como mestre.
“Era
muito exigente… Muito exigente; mas querendo o bem de todos nós, que
entendíamos porque é que ele estava a ser daquela forma. Ele era uma
pessoa tão aberta, uma coisa rara porque as pessoas querem ser as
únicas, as pessoas querem ser insubstituíveis mas o Ricardo sempre se
esforçou para que as portas estivessem abertas para todos os
fotógrafos”.
Rua Araújo
No
tempo colonial, Rangel costumava fotografar mulheres, porque na altura
ninguém lhes queria dar importância como notícia. As suas fotos da Rua
Araújo eternizaram as prostitutas de mini-saia e perucas que nos anos
60 e 70 trabalhavam nos bares de Lourenço Marques.
Numa entrevista, em Junho de 2005 à BBC, o mestre recordou como era ser fotógrafo antes da independência.
“No
tempo do colonial fascismo havia uma censura férrea à imprensa e era
muito difícil fazer passar uma foto. Muitos dos censores eram estúpidos
e muitas fotografias foram publicadas no tempo colonial que denunciavam
o regime, a opressão e a injustiça que eles deixavam passar.
“Quanto à minha foto do jovem marcado a ferro em brasa na testa, nem o Expresso, um jornal de direita mas que de vez em quando
publicava umas coisas que a gente queria passar aqui mas não podia, conseguiu publicá-la”.
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| As suas fotos da Rua Araújo eternizaram as prostitutas dos anos 60 e 70 em Lourenço Marques |
A
morte de Ricardo Rangel reduz uma geração marcante da História cultural
de Moçambique: José Craveirinha (o poeta que recebeu o Prémio Camões),
os fotógrafos Carlos Alberto Vieira, Salvador Ribeiro – todos já
falecidos – e ainda o jornalista Guilherme de Melo e o fotógrafo Kok
Nam.
São também desse mesmo grupo o poeta Rui Knopfli (falecido em Portugal) e o pintor Malangatana.
bbc.com
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